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SAMPA BLOG

O colo é maior que o pano - Sobre Colonialismo na Comunidade Brasileira de Carregadores de Pano

Este é um texto dedicado às profissionais dos facilitadores de colo. Ele registra uma parte do processo de reflexão e aprendizado da Sampa Sling, enquanto uma das marcas pioneiras na fabricação de Slings no Brasil e referência nacional para seu uso.


Você já ouviu falar em tokenização?


Essa é uma palavra esquisita, mas que resume um fenômeno muito comum em alguns polos de discussão, especialmente que tratam de feminismo e racismo.


Seria algo assim: usar um grupo, ou a experiência de um grupo - normalmente um grupo explorado, oprimido ou que sofreu algum apagamento - para tirar vantagem própria, justificar sua conduta ou validar seu discurso opressor.


Como por exemplo, quando alguém é acusado de racismo e diz "eu não sou racista porque até tenho um amigo que é negro".


No nosso mercado, não é incomum que usemos as experiências de maternidade de outras mulheres como token. Em especial quando tratamos de carregamento ancestral e suas infinitas modalidades. Este texto é para levantar essa reflexão e pensar em formas de evitar esse comportamento duvidoso.


Vamos fazer uma pausa aqui para pontuar que toda produtora de Sling contemporâneo trabalha em um lugar de desdobramento da cultura ancestral do carregar. Mas que se trata de uma releitura do passado em moldes atuais. Nenhuma de nós ou nossas clientes jamais vivenciará as experiências de maternidade das culturas ancestrais, inclusive da prática do carregamento no colo. À menos que esteja ainda imersa nessa cultura, recebendo conhecimento e influência ascendente-descendente. Veja esse vídeo, que ilustra como a prática do carregamento é transferida de avó para mãe, de mãe para filha. E como isso se difere de como hoje a mãe contemporânea tem aprendido e escolhido suas práticas.




Voltemos à tokenização na nossa comunidade de carregadores de pano.


Vamos supor que você vende carregadores de pano de um determinado tecido. Sem dúvida, você acredita na qualidade do seu produto e investe muito em contar sobre isso. Isso é ótimo, não há críticas aqui. Mas, não raro, é parte do seu discurso que para valorizar seu próprio produto você precise comparar o produto de outro alguém, que vende carregadores de outro material. E nessa comparação você diminui o produto do seu concorrente.


Não por maldade, mas porque você acredita que sua opção é superior. Você faz questão de pontuar os prós do seu produto e os contras do produto da outra. Essa é uma escolha que você fez: ao vender o seu peixe, você escolheu essa linha de argumentação - da qualidade do produto, da superioridade do seu tecido. Abordagem tecnocrata.


Pois bem, a parte técnica do seu argumento de venda está em perfeitas condições. Mas os aspectos sutis do mercado que você representa perde um pouco quando você fica insistindo no tipo de tecido ideal para o carregamento. Que aspectos? Cultural por exemplo.


Bate aquela vontade de valorizar também as mulheres maravilhosas que mantiveram vivo o colo na humanidade. Porque sabemos, se dependesse das indústrias bebês estariam todos em berços, carrinhos e cadeirinhas.


Então, para dar aquela sensação de que sua linha de discurso não é também assim, somente técnica e baseada nas características dos avanços industriais dos tecidos, (afinal você trata com mães e bebês, e parece ser necessário dar conta desses aspectos sutis também) vira e mexe você posta nas suas redes sociais fotos assim.


Ai que lindo!

Carregador Maravilhoso!

Adoroooo!