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O colo é maior que o pano - Sobre Colonialismo na Comunidade Brasileira de Carregadores de Pano

06/06/2016

Este é um texto dedicado às profissionais dos facilitadores de colo. Ele registra uma parte do processo de reflexão e aprendizado da Sampa Sling, enquanto uma das marcas pioneiras na fabricação de Slings no Brasil e referência nacional para seu uso. 

 

 

Você já ouviu falar em tokenização?

 

Essa é uma palavra esquisita, mas que resume um fenômeno muito comum em alguns polos de discussão, especialmente que tratam de feminismo e racismo.

 

Seria algo assim: usar um grupo, ou a experiência de um grupo - normalmente um grupo explorado, oprimido ou que sofreu algum apagamento - para tirar vantagem própria, justificar sua conduta ou validar seu discurso opressor.

 

Como por exemplo, quando alguém é acusado de racismo e diz "eu não sou racista porque até tenho um amigo que é negro". 

 

No nosso mercado, não é incomum que usemos as experiências de maternidade de outras mulheres como token. Em especial quando tratamos de carregamento ancestral e suas infinitas modalidades. Este texto é para levantar essa reflexão e pensar em formas de evitar esse comportamento duvidoso. 

 

Vamos fazer uma pausa aqui para pontuar que toda produtora de Sling contemporâneo trabalha em um lugar de desdobramento da cultura ancestral do carregar. Mas que se trata de uma releitura do passado em moldes atuais.  Nenhuma de nós ou nossas clientes jamais vivenciará as experiências de maternidade das culturas ancestrais, inclusive da prática do carregamento no colo. À menos que esteja ainda imersa nessa cultura, recebendo conhecimento e influência ascendente-descendente. Veja esse vídeo, que ilustra como a prática do carregamento é transferida de avó para mãe, de mãe para filha. E como isso se difere de como hoje a mãe contemporânea tem aprendido e escolhido suas práticas.

 

 

 

Voltemos à tokenização na nossa comunidade de carregadores de pano. 

 

Vamos supor que você vende carregadores de pano de um determinado tecido. Sem dúvida, você acredita na qualidade do seu produto e investe muito em contar sobre isso. Isso é ótimo, não há críticas aqui. Mas, não raro, é parte do seu discurso que para valorizar seu próprio produto você precise comparar o produto de outro alguém, que vende carregadores de outro material. E nessa comparação você diminui o produto do seu concorrente.

 

Não por maldade, mas porque você acredita que sua opção é superior. Você faz questão de pontuar os prós do seu produto e os contras do produto da outra. Essa é uma escolha que você fez: ao vender o seu peixe, você escolheu essa linha de argumentação - da qualidade do produto, da superioridade do seu tecido. Abordagem tecnocrata.

 

Pois bem, a parte técnica do seu argumento de venda está em perfeitas condições. Mas os aspectos sutis do mercado que você representa perde um pouco quando você fica insistindo no tipo de tecido ideal para o carregamento. Que aspectos? Cultural por exemplo.

 

Bate aquela vontade de valorizar também as mulheres maravilhosas que mantiveram vivo o colo na humanidade. Porque sabemos, se dependesse das indústrias bebês estariam todos em berços, carrinhos e cadeirinhas. 

 

Então, para dar aquela sensação de que sua linha de discurso não é também assim, somente técnica e baseada nas características dos avanços industriais dos tecidos, (afinal você trata com mães e bebês, e parece ser necessário dar conta desses aspectos sutis também)  vira e mexe você posta nas suas redes sociais fotos assim. 

 

Ai que lindo! 

Carregador Maravilhoso!

Adoroooo!

 

Fotografias de Beatrice Fontanel no Livro: Bebés Du Monde

 

 

Percebeu? Usa a história, a bagagem, a experiência antropológica de grupos e culturas- nesse caso sim, largamente oprimidos - para criar um falso senso de validade para seu próprio negócio. Que nunca usou a pluralidade como argumento de venda, uma vez que escolheu hierarquizar a tecnologia dos tecidos. 

 

Isso valeria também para as posições do bebê, os tipos de amarração, as indicações de uso de cada formato de carregador.  Isso é tokenização.

 

Transportando esse fenômeno para outras áreas relacionadas do nosso universo, seria como: 

 

  • Um obstetra que tem taxas de 90% de cesáreas eletivas usar fotos de partos humanizados para decorar o consultório.

  • Uma empresa que fabrica leite artificial usar em uma campanha digital fotos de mulheres amamentando em um protesto, dizendo ser também um aliado da amamentação.

  • Uma corporação que vende bebidas açucaradas ser patrocinadora de um evento esportivo que tem foco na promoção de saúde. 

 

Como vocês podem ver, a tokenização é um hábito muito normalizado, que serve para "lavar" um comportamento incongruente com o que seria socialmente aceito. Ninguém quer se reconhecer racista. Então usa o amigo de token para limpar a própria barra.

 

Ninguém quer renegar a pluralidade do carregamento de bebês pelo mundo. Mas quando escolhe tecnocratizar o acesso e a prática dos carregadores, fica numa posição conflitante. E Tokeniza.

 

Como escapar disso?

 

O colo é maior que o pano

Nossa prática tem mostrado que os argumentos de venda para o carregamento de bebês não estão e nunca estiveram atrelados ao produto. É claro que bons tecidos, aspectos de segurança, ergonomia e outros dados de qualidade precisam ser observados com muita atenção por quem escolhe transformar o colo e os carregadores em prática profissional. Mas essas questões, quando sobrepostas às finalidades do produto e da prática - vínculo, facilitação da amamentação, emancipação da mulher entre outras - levam ao beco sem saída da incoerência. Na prática do colo e carregadores de bebê enquanto atividade profissional, as finalidades não podem ser apagadas pelos meios.

 

De olho na apropriação cultural

Temos elaborado muitas reflexões acerca da apropriação cultural do carregamento no pano, na medida que entendemos que nossa prática precisa sempre atribuir valor às culturas, experiências e características de todas as modalidades de carregamento. É só por elas que o colo sobreviveu. Assim, conhecer, divulgar e atribuir valor ao contexto histórico, antropológico e cultural que nos trouxe aqui, inclusive fazendo os recortes de raça que são tão necessários, é de extrema importância. Leia mais aqui sobre apropriação cultural

 

Mais escuta, menos julgamentos

Não somos a polícia do Sling. Fizemos a escolha de respeitar e acolher as pluralidades dessa prática. Existe uma tendência no trato de mulheres que se tornam mães por parte dos mais variados profissionais, de apagar o universo riquíssimo de conhecimento, intuição e potência que cada pessoa trás consigo. Não compactuamos com a abordagem fragilizante das mulheres e mães, tratando-as como se fossem incapazes. Nosso compromisso é apoiar com escuta antes de querer impor "o nosso jeito" para essa ou aquela mãe, acreditando que está nela a possibilidade de descobrir seu jeito de maternar.

 

Há espaço para todos

Na gana de competir por nichos de mercado é que surgem essas vontades de ser superior, ser melhor, tomar a frente e por fim: oprimir e usar discursos distorcidos sobre o carregamento de bebês no pano. O risco de ser preconceituoso, cair na apropriação das culturas e tokenizar a maternidade alheia é mais alto quando você entra no modo "competição". Somos partidários da cultura da abundância, entendemos que há espaço para todos e fazemos nosso trabalho dentro das balizas técnicas e éticas. Não nos comparamos com outras marcas. Foco no trabalho dia a dia, o sucesso é resultado.

 

Revisão, Reflexão, Sempre

A Sampa Sling permanece em constante processo de mudança. Tanto do ponto de vista da melhoria dos produtos, quanto das práticas. Tanto no atendimento para os clientes como da nossa missão e propósito. Não existem argumentos ou regras que tenhamos criado que não possam ser revistos se isso significar mudança para melhor. Nosso compromisso está sempre em fazer o bem, para um grupo cada vez maior de pessoas e com foco no aumento de benefícios para todos os envolvidos. 

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